Thursday, February 09, 2006


Meridiano de Sangue

O Juiz Holden mede cerca de 2,25m, não tem pêlo nenhum no corpo e é albino. Parece impossível estimar sua idade. É fluente ao menos em inglês, indígena, holandês, francês, latim e grego. Tem conhecimentos avançados sobre geologia, teologia e filosofia. Fala como um erudito e, às vezes, junta o grupo de Glanton para monólogos quase incompreensíveis. É cortês e dança esplendidamente, com direito a passos de bailarina. À noite, é visto correndo nu pelo acampamento, gritando ou falando sozinho, insone. Repete, na última página do livro, que “não vai morrer”. E adora crianças: sempre que o grupo cruza com uma delas, a leva no colo carinhosamente por alguns dias e, sem sabermos como, a estupra e mata. Como protagonista do sentido do livro, guarda em si as ambivalências do paradoxo entre existência e não-existência. Quando, anos depois das aventuras junto ao grupo, o rapaz (já velho) o encontra exatamente com o mesmo rosto que tinha décadas atrás e o juiz o empala em um banheiro fétido do fundo de uma taberna, a morte prevalece. Como gostamos de pensar sobre a Justiça, tarda, mas não falha. Afinal, ele é o juiz de sua espécie, ser eterno, como que vindo à carne para a ela destruir, que conhece a tudo, pois é a esse cosmomundo que está ligado, de onde provém e para onde parece querer levar tudo o que o cerca. Em seu nunca lido caderninho, tenta se apossar da vida em assassínio simbólico, levando desenhos de homens e de animais dentro do bolso. Quando tudo passar, ainda dançará, belo e frágil. Ainda será o homem que o homem perseguiu ser durante toda sua história: imortal e magicamente sábio, desvendando também que, por dentro de sua busca desesperada pela existência, existe a dialética necessidade de autodestruição. O prazer que tem em destruir os germes humanos (crianças) das formas mais violentas conhecidas é a resposta inversamente proporcional à arrogância humana – e o faz sexualmente, como uma reprodução estéril.